Trazer para São Paulo uma cozinha mineira mais moderna, sem abrir mão das raízes. Essa é a proposta do chef Mário Santiago à frente do Lena, seu primeiro restaurante solo na capital paulista, instalado em Pinheiros.
O nome da casa é homenagem à mãe do chef — e essa informação não é apenas biográfica. Ela explica muito do que se encontra no salão de pé-direito duplo, cercado por plantas e objetos afetivos: há intenção de acolhimento. O Lena não nasce como exercício de técnica, mas como continuidade de história.
Mineiro de Belo Horizonte, formado em engenharia pela Universidade Federal de Minas Gerais, Mário mudou de rota para seguir a cozinha. Estudou no Le Cordon Bleu, passou pelo Mocotó, estagiou no Noma e integrou a equipe do Manioca. Mas, no meio dessa trajetória internacional, ele nunca deixou Minas.
Galinhada e cupim, duas opções deliciosas do cardápio do Lena
O pão de queijo — feito diariamente com polvilho fermentado naturalmente do Sul de Minas e queijo curado da Serra da Canastra — é símbolo disso. Assim como o angu com queijo tulha, a galinhada com gema curada no shoyu e cachaça ou o cupim cozido por 12 horas até desmanchar. Há técnica. Há mundo. Mas há chão.
Gratidão como fundamento
Em nossa conversa, um ponto ficou muito claro: Mário não fala apenas de carreira — fala de continuidade. Ele fez questão de mencionar a chef e madrinha Renata Braune com emoção: “Ela me abraçou, me ensinou tudo que poderia ter me ensinado e ainda continua. E sei que vai sempre continuar me ensinando.”
Somos todos continuação de quem veio antes de nós. E ouvir um jovem chef reconhecer isso, num momento em que a gastronomia muitas vezes exalta apenas o protagonismo individual, é um sinal de maturidade rara. A cozinha também é linhagem.
Para comer a qualquer hora — e lembrar
O Lena trabalha com pratos de almoço e opções mais rápidas ao longo do dia. Torresmo com molho fresco de ervas, pão de queijo recheado com costelinha e goiabada defumada, broa de milho com kimchi de ora-pro-nóbis, drinques leves e solares elaborados com consultoria de Isadora Fornari. A carta de vinhos é da Alma Vinhos, com opções como o Arte Viva Juju Rosé e o Casa Geraldo Jatobá.
Pipoquinha de pão de queijo com creme azedo e goiabada (Foto: Ayra Comunica)
Quando almocei ali, gostei de tudo. Mas houve um gesto simples que me tocou especialmente: a pipoquinha de pão de queijo com creme azedo — e a combinação com goiabada. Pequena, afetiva e inteligente, essa sobremesa traduz bem o espírito do Lena: algo que nasce da tradição, mas ganha nova textura, novo formato, nova conversa.
Cozinha é memória em movimento
Mário Santiago mostra que a cozinha mineira pode, sim, ocupar espaços urbanos contemporâneos, dialogar com fermentados asiáticos, técnicas francesas e referências nórdicas — sem perder o fogão simbólico da casa da mãe.
O Lena não é apenas um restaurante novo em São Paulo. É um projeto que reafirma que técnica se aprende, mas gratidão se cultiva. E talvez seja justamente isso que dá sabor mais profundo aos pratos: saber de onde se veio — para então seguir.
Ambiente acolhedor e descontraído
Lena
Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 98 – Pinheiros – São Paulo (SP)
Horários: Terça a sexta, das 11h30 às 16h/Sábado: das 11h30 às 16h e das 19h às 23h/Domingo: 12h às 16h
Capacidade: 46 lugares – Acessibilidade
Café da manhã aos sábados
Carlos Ribeiro é chef de cozinha, pesquisador e escritor, chef consultor da Casa Mocca, em Mococa (SP). Escreve sobre cozinha, afeto e o sabor das memórias brasileiras. – Foto: Paule Marques
Fotos de abertura e do ambiente: Duda Gulman






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