Conheci Elíbia Portela em 2005, no Festival Tempero do Forte, na Praia do Forte, Bahia. Depois, gravei dois programas com ela na Band. Apesar de termos ficado um tempo sem nos ver, é uma amizade que se mantém até hoje.
Sua trajetória profissional tem início no começo da década de 1980 quando vendia Tupperware e se consolida ao longo dos anos como professora, comunicadora, autora de livros de receitas de cozinha e formadora de cozinheiras e cozinheiros. Sua atuação ultrapassa o campo técnico e se estabelece na dimensão social da gastronomia, onde o alimento assume papel central na geração de conhecimento, renda e pertencimento cultural.
É de sua autoria a receita dos tradicionais e hoje patrimoniais pãezinhos delícia, tal como são produzidos atualmente. Antes de sua sistematização, esses pães eram conhecidos apenas como “pãezinhos de festa”, apresentando textura mais densa e formatos padronizados. A transformação ocorreu por meio de ajustes técnicos precisos, sensibilidade e da introdução da batata, ingrediente fundamental para a maciez, o sabor e a identidade do produto.
O pãozinho delícia permite variações, conforme a proposta
A difusão do pãozinho delícia resultou na consolidação de um saber culinário amplamente compartilhado. Atualmente, milhares de pessoas na Bahia sustentam-se exclusivamente de sua produção, evidenciando o impacto econômico e social desse conhecimento. A receita tornou-se uma ferramenta concreta de autonomia produtiva, especialmente entre mulheres, e um exemplo de como a gastronomia pode atuar como vetor de inclusão.
A presença de Elíbia Portela em eventos nacionais reafirma a atualidade e a relevância de seu trabalho. Em 2025, participou das edições do Chocolat Festival, realizadas em Salvador e em Ilhéus, fortalecendo o diálogo entre tradição, técnica e cultura alimentar e contribuindo para a valorização da gastronomia baiana no cenário contemporâneo.
Elíbia Portela é uma das principais referências da culinária baiana contemporânea: autoria, técnica e impacto social.
O processo de produção do pãozinho delícia envolve cuidado e precisão em todas as etapas. O recheio, elaborado com creme de leite e queijo parmesão, admite variações conforme a proposta. A massa, composta por fermento biológico, leite morno, gemas, manteiga e batata cozida, é sovada até atingir elasticidade e leveza. A modelagem segue padrões de delicadeza e uniformidade, e o assamento preserva a cor clara e a textura macia que caracterizam o produto.
O percurso de Elíbia Portela consolida um legado que articula técnica, cultura e responsabilidade social. O pãozinho delícia, hoje reconhecido como símbolo afetivo da Bahia, representa não apenas um alimento, mas um patrimônio vivo da culinária brasileira.Viva a Cozinha Baiana! Viva Elíbia Portela e o Pão Delícia.
Carlos Ribeiro é chef de cozinha, pesquisador e escritor, chef consultor da Casa Mocca, em Mococa (SP). Escreve sobre cozinha, afeto e o sabor das memórias brasileiras. – Foto: Paule Marques




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