O som das panelas se mistura ao canto das marés em Trancoso. No fogão do Manjar Ancestral, Iza Souza acende o fogo com respeito e reza: “Cada prato é uma lembrança, cada tempero é uma história que volta pra casa.” Cozinhar é resistir. Cozinhar é curar. Cozinhar é lembrar quem somos. Essas três frases poderiam resumir a trajetória da chef, pesquisadora e professora Iza Souza, idealizadora do projeto Manjar Ancestral, em Trancoso, no sul da Bahia.
À frente dessa iniciativa, Iza dedica-se ao resgate da cozinha afro-indígena brasileira, transformando cada prato em um gesto de afeto, identidade e espiritualidade. Formada como cozinheira pelo SENAC, Iza é membro da comunidade ForbesBLK, rede global que reúne líderes e empreendedores negros comprometidos com a transformação social.
Atualmente, cursa Antropologia na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), onde pesquisa o alimento como expressão da cultura e da espiritualidade dos povos afro-indígenas.
“Quando cozinho, eu converso com minhas ancestrais. Cada folha, cada fogo aceso carrega uma história que não pode se perder.”
Reconhecida nacionalmente, recebeu o Prêmio Dólmã (2021), foi nomeada Embaixadora da Gastronomia Baiana pelo Instituto Multidisciplinar e ganhou Menção Honrosa no Prêmio Gastronomia Preta. Sua trajetória também está registrada na primeira edição do livro Gastronomia Preta.
O Manjar Ancestral — alimento, afeto e espiritualidade
Em Trancoso, o Manjar Ancestral funciona como um espaço de experiências — entre cozinha, pesquisa e memória. Ali, Iza ministra oficinas, palestras e cozinhas-show, que convidam o público a refletir sobre o ato de cozinhar como caminho de cura, reconexão e resistência. “A espiritualidade está presente em cada gesto. O que muda é a intenção com que mexemos a panela, o respeito pelo alimento e por quem vai recebê-lo”, declara.
O projeto também tem um papel pedagógico, promovendo a valorização dos saberes tradicionais e o fortalecimento da identidade cultural afro-indígena. Iza acredita que o alimento é um instrumento político e espiritual, capaz de preservar histórias e semear futuros. Entre suas receitas mais afetivas está o Arroz de Pescador, prato que carrega o sabor da beira-mar e a força das ancestralidades que alimentam o povo baiano. A seguir, uma receita em versão simplificada (você pode incluir outros frutos do mar, como lulas, e outros ingredientes como pimentões e vagem).
Arroz de Pescador — um prato, muitas memórias
Rendimento: 4 porções
Tempo de preparo: 40 minutos.
Ingredientes
• 2 xícaras (chá) de arroz
• 400 g de peixe em cubos (robalo, badejo ou dourado)
• 200 g de camarão limpo
• 1 cebola picada
• 3 dentes de alho amassados
• 1 tomate maduro picado
• ½ pimentão verde picado
• 1 colher (sopa) de coentro picado
• 1 colher (sopa) de azeite de dendê
• 1 colher (sopa) de azeite de oliva
• sal e pimenta a gosto
• 3 xícaras (chá) de água quente
Modo de preparo:
1. Em uma panela, aqueça o azeite de oliva e refogue a cebola, o alho e o tomate. Junte o peixe e o camarão, tempere com sal e pimenta e refogue rapidamente.
2. Acrescente o arroz, misture bem e adicione a água quente. Cozinhe até o arroz ficar macio e úmido. Finalize com o coentro e o azeite de dendê. Sirva quente, de preferência em panela de barro.





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