Mesa Completa - Por Solange Souza

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    Colunistas • 30 de outubro de 2025

    Sabor como Resistência

    Para a chef Iza Souza, do Manjar Ancestral, em Trancoso (BA), cozinhar é resistir, é curar, é lembrar quem somos – Carlos Ribeiro

    O som das panelas se mistura ao canto das marés em Trancoso. No fogão do Manjar Ancestral, Iza Souza acende o fogo com respeito e reza: “Cada prato é uma lembrança, cada tempero é uma história que volta pra casa.” Cozinhar é resistir. Cozinhar é curar. Cozinhar é lembrar quem somos. Essas três frases poderiam resumir a trajetória da chef, pesquisadora e professora Iza Souza, idealizadora do projeto Manjar Ancestral, em Trancoso, no sul da Bahia.

    À frente dessa iniciativa, Iza dedica-se ao resgate da cozinha afro-indígena brasileira, transformando cada prato em um gesto de afeto, identidade e espiritualidade. Formada como cozinheira pelo SENAC, Iza é membro da comunidade ForbesBLK, rede global que reúne líderes e empreendedores negros comprometidos com a transformação social.

    Atualmente, cursa Antropologia na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), onde pesquisa o alimento como expressão da cultura e da espiritualidade dos povos afro-indígenas.

    “Quando cozinho, eu converso com minhas ancestrais. Cada folha, cada fogo aceso carrega uma história que não pode se perder.”

    Reconhecida nacionalmente, recebeu o Prêmio Dólmã (2021), foi nomeada Embaixadora da Gastronomia Baiana pelo Instituto Multidisciplinar e ganhou Menção Honrosa no Prêmio Gastronomia Preta. Sua trajetória também está registrada na primeira edição do livro Gastronomia Preta.

    O Manjar Ancestral — alimento, afeto e espiritualidade
    Em Trancoso, o Manjar Ancestral funciona como um espaço de experiências — entre cozinha, pesquisa e memória. Ali, Iza ministra oficinas, palestras e cozinhas-show, que convidam o público a refletir sobre o ato de cozinhar como caminho de cura, reconexão e resistência. “A espiritualidade está presente em cada gesto. O que muda é a intenção com que mexemos a panela, o respeito pelo alimento e por quem vai recebê-lo”, declara.

    O projeto também tem um papel pedagógico, promovendo a valorização dos saberes tradicionais e o fortalecimento da identidade cultural afro-indígena. Iza acredita que o alimento é um instrumento político e espiritual, capaz de preservar histórias e semear futuros. Entre suas receitas mais afetivas está o Arroz de Pescador, prato que carrega o sabor da beira-mar e a força das ancestralidades que alimentam o povo baiano. A seguir, uma receita em versão simplificada (você pode incluir outros frutos do mar, como lulas, e outros ingredientes como pimentões e vagem).

    Arroz de Pescador — um prato, muitas memórias

    Rendimento: 4 porções
    Tempo de preparo: 40 minutos.

    Ingredientes

    • 2 xícaras (chá) de arroz
    • 400 g de peixe em cubos (robalo, badejo ou dourado)
    • 200 g de camarão limpo
    • 1 cebola picada
    • 3 dentes de alho amassados
    • 1 tomate maduro picado
    • ½ pimentão verde picado
    • 1 colher (sopa) de coentro picado
    • 1 colher (sopa) de azeite de dendê
    • 1 colher (sopa) de azeite de oliva
    • sal e pimenta a gosto
    • 3 xícaras (chá) de água quente

    Modo de preparo:

    1. Em uma panela, aqueça o azeite de oliva e refogue a cebola, o alho e o tomate. Junte o peixe e o camarão, tempere com sal e pimenta e refogue rapidamente.
    2. Acrescente o arroz, misture bem e adicione a água quente. Cozinhe até o arroz ficar macio e úmido. Finalize com o coentro e o azeite de dendê. Sirva quente, de preferência em panela de barro.

    “Esse prato é memória de mar, de aldeia, de quintal. É a lembrança dos cheiros que o vento traz quando a gente volta pra casa.”


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