Mesa Completa - Por Solange Souza

Menu

Colunistas • 7 de janeiro de 2016

Prova vertical

Uma boa maneira de ver a influência das safras e a evolução de um vinho, no caso o Château Sociando-Mallet – Gerson Lopes

Gerson

Nesse tipo de prova, escolhemos um mesmo vinho de um determinado produtor, em diferentes safras, de modo a observar o que mudou a cada safra. Na primeira reunião do ano da Confraria Harmonia, em Belo Horizonte, o escolhido foi o Château Sociando-Mallet, um bordalês de Haut-Médoc e um dos melhores vinhos franceses, nas safras 2001, 2002, 2003, 2005, 2006 e 2007.
De modo a tornar a degustação mais divertida, tive a ideia de acrescentar mais dois vinhos: um que chamei de “gêmeo fraterno” – outra garrafa de Sociando-Mallet, safra 2003 – e o outro o “estranho no ninho” – Château D’Aurilhac 2005, Haut-Médoc. Rótulos tampados (uma prova às cegas) e duas perguntas inicialmente teriam de ser respondidas: Qual a safra repetida e qual era o intruso? Sobre o intruso, quatro, dos oito participantes, descobriram. Com relação à safra repetida, ninguém acertou. Degustação às cegas é isso, um exercício de humildade.

Vertical Sociando-Mallet

Depois fomos atrás de eleger os três melhores vinhos da noite, na opinião de cada confrade. Sabemos da grande qualidade que foi para Bordeaux a safra de 2005, vindo a seguir 2003 e 2001, ao passo que 2002 e 2007, principalmente esta última, não foram boas. Em Bordeaux quando a safra não é boa, dizem eles que foi clássica. A teoria na prática é outra.
A maioria votou no trio: SM 2001, SM 2003 e SM 2007. Uma tentativa de explicação pode ser: 2001 – estava em seu momento melhor; 2003 – ano que vem surpreendendo a todos, como foi o caso do SM, e o 2007 – pronto mais cedo, por não ser um bom ano, o contrário com os dois da safra 2005. SM 2002 estava bouchonée (doença da rolha).

SMallet

Château Sociando-Mallet (SM) tem suas vinhas de Cabernet Sauvignon (55%), Merlot (40%) e Cabernet Franc (5%) plantadas em solos geologicamente muito similares aos de Montrose e de Latour, e é um dos vinhos “non classés” altamente admirados pelos críticos internacionais. Robert Parker, em vários momentos de seu blog (Wine Advocate), diz que em sua adega particular tem ainda muitos Sociando-Mallet, inclusive das safras 1970, 1975 e 1982, e sempre que os degusta percebe ainda algo de juventude. Para ele, “Sociando-Mallet poderia ser descrito como o primo pobre de Latour e Montrose”. Segundo Hugh Johnson e Jancis Robinson, em seu famoso livro Atlas Mundial do Vinho, o Sociando-Mallet é um “puro sangue”. Não há como deixar de se encantar com os vinhos dessa vinícola, localizada ao norte de Saint-Estèphe que foi adquirida por Jean Gautreau em 1969. Brilhante e admirável, Jean Gautreau trocou seu rico ofício de negociante com álcool para se dedicar integralmente aos seus deliciosos e longevos vinhos.

Gerson Lopes é médico mineiro com atuação em sexologia e acredita que a vida é o melhor afrodisíaco. Criador do site Vinho e Sexualidade


1 Comentário

    Deixe o seu comentário!